Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Campo dos sonhos

Da rápida aclamação de Dilma Rousseff à invenção de Ciro Gomes como candidato em São Paulo, as novidades mais importantes e surpreendentes do PT neste ano pré-eleitoral passam pela reconstrução do grupo que comandou o partido com mão-de-ferro no primeiro mandato de Lula e saiu estilhaçado do mensalão.
Núcleo do extinto Campo Majoritário, a corrente Construindo um Novo Brasil se fortaleceu dentro da legenda e prepara uma aliança com alas que se desgarraram em 2005. O objetivo é assegurar a presidência da sigla em novembro e o controle da política interna no pós-Lula.
Para essa coalizão, porém, as eleições de 2010 atrapalham. Ela não tem nomes competitivos para oferecer às principais votações (Presidência e governo de São Paulo). Os caciques caíram nos escândalos. Não surgiram novas lideranças.
Daí a boa vontade desses petistas com o "dedazo" de Lula na corrida pelo Planalto. Dilma nunca militou dentro do partido. Uma vitória dela não ameaçará imediatamente a reconstrução do Campo Majoritário.
Obedece à mesma lógica a ideia de transplantar Ciro Gomes. José Dirceu & Cia. sabem que vencer os tucanos em São Paulo em 2010 será quase impossível, mas sabem que a campanha tem o potencial de catapultar um novo nome para a eleição à prefeitura da capital em 2012.
Apavora esse grupo a possibilidade de que Lula faça essa escolha _como fez com Marta Suplicy em 1998 (derrotada para o governo, ela levou a prefeitura em 2000). E, pior, que o presidente escolha, desta vez, um candidato petista que não tenha se "reconciliado" com o mensalão. Um Fernando Haddad (ministro da Educação), por exemplo.
Por isso o lançamento afoito dos nomes do prefeito de Osasco e do ex-governador do Ceará. Se perder, a Emidio de Souza ou a Ciro só restará voltar pro seu quadrado. Já o novo Campo terá dois anos e céu aberto para consolidar uma candidatura de confiança para 2012.

coluna de 06.jul.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

O país do futuro

A disputa no Senado, do atoleiro de Sarney ao cabo-de-guerra em torno da instalação de CPIs, não deve ser analisada à margem da corrida presidencial.
Tanto o governo federal como seus adversários sabem que Dilma Rousseff, ainda que tenha razões para martelar a comparação dos oito anos de Lula com os oito anos de FHC, não poderá fazer uma campanha somente retrospectiva.
A satisfação do brasileiro detectada pelas pesquisas de opinião não significa uma descarga automática de votos na candidata da situação. Nada impede que o eleitor considere um nome da oposição mais capacitado para preservar o que deu certo e realizar novos sonhos.
É por isso que, de um lado, Aécio Neves fala no pós-Lula e José Serra evita afrontar o Planalto e, de outro, o presidente insiste em programas que ultrapassam o calendário de seu mandato (PAC, Minha Casa). De certo modo, eles já travam a disputa desse futuro continuísta.
Para sobressair numa eleição sem vocação para o contraste e atender as expectativas do eleitorado (otimista até na crise econômica), Dilma terá, portanto, de jogar pra frente e lançar o que colegas de Planalto chamam de "mito novo".
O fato de a ministra ser desconhecida é ao mesmo tempo um trunfo e um transtorno. Dá aos marqueteiros liberdade para corrigir a imagem e inventar o discurso, mas torna mais difícil conferir credibilidade ao pacote final. Que "mito" pode prometer uma candidata que não tem retrospecto de promessas?
O pré-sal é a chave. A fabulosa receita estimada da exploração dos novos poços autoriza planos grandiosos. Dilma, que cuidou de energia no governo Lula, tem autoridade para anunciar a "revolução do bem-estar" bancada pelo petróleo.
Uma CPI da Petrobras permitiria à oposição atrapalhar a construção desse "mito novo"; a sobrevivência e a agonia de Sarney no Senado ajudam o governo a evitar a CPI.

coluna de 04.jul.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

O velho truque do baralho novo

A repentina ideia de escalar Ciro Gomes para disputar o governo de São Paulo tem uma consequência imediata. Força os institutos de pesquisa a lidar com o "fato novo" estadual e, com isso, praticamente garante um impulso à candidatura nacional de Dilma Rousseff.
Há duas maneiras principais de construir um nome para uma eleição majoritária: torná-lo conhecido e valorizar os seus atributos.
Para divulgar o nome da ministra, existe pouco a fazer além do que tem sido feito desde o ano passado. A "caravana do PAC" não pode visitar dois lugares ao mesmo tempo.
Quanto às virtudes, por ora estão em jogo as que Dilma tomou emprestadas de Lula. E estas já são mais do que sabidas e valorizadas.
Se nada mudar, governo e PT apostam que Dilma continuará a crescer em 2009, mas menos rapidamente do que até aqui. Por isso a conveniência de uma "novidade".
O triunfo sobre o câncer linfático poderia fazer essa função catalisadora. Mas ele não poderá ser anunciado antes de setembro _e não há certeza quanto à adequação do uso eleitoral da imagem da ministra assim que encerrar a quimioterapia.
Não há contraindicação, porém, para o "transplante" de Ciro e para a mudança artificial das cédulas que Datafolha, Vox Populi e Ibope submetem a seus entrevistados.
As intenções de voto em Ciro para a Presidência tendem a migrar para a outra candidata da base lulista. Mas, ainda que se dividam igualmente entre os principais concorrentes, será fácil promover a boa "notícia": "Dilma chega a 30%!".
Resta saber por que Ciro, líder nas pesquisas nacionais em alguns cenários, não recusou de bate-pronto o papel secundário em São Paulo.

Será a birra antiga de Serra? Inapetência? Deferência a Lula? Ou finalmente lhe caiu a ficha de que nunca foi o Plano B do Planalto, de que nem no próprio partido é o favorito do presidente e de Dilma (o privilégio cabe ao governador pernambucano, Eduardo Campos)?

coluna de 19.jun.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Vanguardas e atrasos

Talvez seja cedo para decretar a débâcle de José Sarney ou sentenciar que o ex-presidente da República cometeu um erro ao reassumir a direção do Senado.
É verdade que a Casa vive momento de total descrédito, colhida por uma avalanche sem precedentes de denúncias _de nomeações secretas a servidores fantasmas, de mansões ocultas a aviões fretados.
É igualmente verdade que Sarney está afundado até o pescoço nos escândalos. A cada semana, precisa repetir um "eu não sabia". Já teve de pedir desculpas, divulgar seu contracheque e devolver dinheiro.
Mas é verdade, também, que, graças à vitória de Sarney em fevereiro, o chamado "PMDB do Senado" voltou a capturar a atenção de Lula. O Planalto, que costuma desdenhar do Legislativo, não poderá ignorar o grupo que terá o controle da CPI da Petrobras, ameaça potencial à candidatura de Dilma Rousseff.
Assim como é verdade que, da privilegiada posição no Congresso, o ex-presidente pôde zelar por sua rede de influências no setor de energia. Uma lei foi aprovada para permitir à Eletrobrás fazer compras a toque de caixa. O sarneyzista Edison Lobão é o ministro envolvido na regulação do pré-sal.
É verdade, ainda, que a PF ficou mais "republicana" e diminuiu a publicidade dos inquéritos que investigam obras nos Estados em que o clã Sarney atua (Operação Navalha) e transações financeiras de empresas da família (Boi Barrica).
Por fim, é verdade que, desde fevereiro, o TSE julgou três governadores e beneficiou o PMDB nos três casos. Derrotada nas urnas, Roseana Sarney levou o Maranhão no tapetão.
Como se vê, Sarney segue ocupado com o exercício do poder. É isso que o move, não os aplausos _nunca os recebeu, nem pela transição para a Nova República. Será uma surpresa se ele entregar os pontos porque a "biografia foi manchada" pelos vícios do Senado. É mais provável que a apoplexia dos últimos dias seja o preparo do contra-ataque.

coluna de 16.jun.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Minc e o cérebro

Carlos Minc levou bronca de Lula, foi enquadrado por Dilma e ouviu até palavrão de colegas de governo. Mas o Planalto deve um enorme favor ao ministro por ter provocado tanta "algazarra".
Minc foi escolhido para substituir Marina Silva só porque topou o papel de carimbador expresso de obras de infraestrutura. Tem seguido o roteiro, aliás. As usinas de Jirau e Santo Antônio, por exemplo, receberam sinal verde apesar dos senões de técnicos do Ibama.
Daí a surpresa que causaram as "denúncias" do ministro do Meio Ambiente de derrotas em sua área, notadamente a medida provisória que regulariza a posse de terras na Amazônia. Foi Lula, afinal, quem produziu a "MP da Grilagem". E foi a base governista na Câmara que aprovou a redação final. Durante semanas, somente uma voz no PT se elevou contra a manobra: não a de Minc, mas a de Marina Silva.
Chegou-se a temer que os desabafos repentinos do ministro pudessem estragar o balanço do PAC. Exagero. Como embaraçar uma cerimônia que anuncia como "concluída" uma rodovia entregue à iniciativa privada, ainda que nenhum quilômetro tenha sido asfaltado? Dilma Rousseff nem piscou, claro, ladeada de reverentes companheiros da Esplanada, numa espécie de Santa Ceia do primeiro escalão.
Diminuído, Minc recuou. Disse que antes de tudo era um "homem do governo" e que havia opinado em nome de "amigos e eleitores".
Podia até ser. Mas o esperneio do ministro acabou jogando a crise no colo do Senado, só porque a "MP da Grilagem" lá tramitava naquele momento. Logo os senadores, que nem relaram no conteúdo do texto...
Se agora atender ao "apelo" do ministro e fizer algum ajuste no decreto, Lula sairá revigorado da confusão que armou. Se sancioná-lo sem vetos, a culpa será do agronegócio, do DEM, do Congresso... Marina defendia o ambiente com mais vigor, mas Minc lava mais verde.

coluna de 12.jun.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Corpo estranho

À medida que o nome da "mãe do PAC" ganha corpo nas pesquisas, Lula e o PT deixam de se preocupar apenas com a campanha e os cenários eleitorais para discutir também o loteamento de espaços num governo Dilma Rousseff.
Isso é colocar o carro à frente dos bois, dirá o leitor, já que a ministra ainda não tem nem a metade das intenções de voto do principal adversário. Para os interessados, porém, são medidas de precaução, naturais diante da artificialidade com que a candidatura foi concebida.
Em boa medida, Dilma entrou e cresceu no governo federal por acaso. Assumiu a pasta de Minas e Energia só porque, na última hora, ruiu um acordo com o PMDB. Foi para a Casa Civil só porque José Dirceu não resistiu ao mensalão.
Ela não teve de passar pelo crivo dos políticos ou da sociedade civil. Jamais disputou eleição. Nunca se interessou pelas atividades internas do PT (possivelmente estaria até hoje no PDT, se os brizolistas não tivessem rompido com o governo gaúcho do petista Olívio Dutra, no qual era secretária). O tempo todo foi Lula quem a bancou.
Por isso, dentro da enorme e heterogênea aliança que a defende para a Presidência, poucos sabem de fato quem ela é, o que pensa e, sobretudo, como reagiria no poder.
Daí a preocupação de garantir um "fio-terra" lulista para o caso de vitória. Nos últimos dias, aumentaram os sinais de que Dilma será cercada de pessoas do círculo de confiança de Lula e do PT. O chefe de gabinete Gilberto Carvalho, por muito tempo cotado para presidir o partido, e o ex-ministro Antonio Palocci, que ensaiou se candidatar ao governo de São Paulo, permaneceriam no Planalto em 2010 a fim de assegurar posições em 2011.
O PT, também, opera uma inédita pacificação das correntes internas. Unidas, elas teriam mais condições de negociar cargos, verbas e projetos com a eventual presidente.
O senão é que Dilma, animada, também já quer escolher os seus.

coluna de 05.jun.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Serra, serra, serrador

José Serra manteve a liderança isolada nas intenções de voto para a Presidência e viu melhorar a avaliação de sua administração em São Paulo. Mesmo assim, a mais recente pesquisa Datafolha não chega a ser boa para o tucano.
Primeiro, a crise econômica (falta de crédito, alta do desemprego, inadimplência crescente) não arranhou a imagem do governo federal.A popularidade de Lula voltou ao patamar recorde (69%). Portanto, se o país sofrer outro abalo daqui até 2010, nada garante que a oposição conseguirá capitalizá-lo.
Segundo, a candidata de Lula confirmou o potencial. A desvantagem de Dilma Rousseff caiu de 30 para 22 pontos (38% x 16%). Deve cair mais. Um terço dos entrevistados ainda não sabe quem é ela. A campanha escancarada, com forró em Caruaru etc., cuidará disso.
Terceiro, o Datafolha fragilizou Aécio Neves _ele aparece atrás de Ciro Gomes (PSB) e de Dilma e empatado com Heloísa Helena (PSOL). Interessava aos serristas turbinar o governador mineiro e convencê-lo a compor uma chapa puro sangue, e não o ver sair apequenado e focado em seu Estado.
Os tucanos otimistas dirão que Serra está ainda recolhido, e que por isso seus números são ótimos e o futuro a ele pertence. Mas o que o governador terá a oferecer quando sair do recolhimento? Provavelmente menos do que o Planalto.
A expectativa de poder não basta mais para atrair apoios. Os PMDBs já deixaram claro que pretendem ficar com o candidato do governo (sugando a máquina enquanto puderem), certos de que serão chamados para assegurar a "governabilidade" não importa o vencedor.
Por fim, o Datafolha complicou até a "saída por cima". Será difícil para Serra renunciar à corrida nacional alegando necessidade de garantir São Paulo para o PSDB. A pesquisa revelou um PT débil no Estado e, mais, que Geraldo Alckmin faria o mesmo serviço (no primeiro turno) para os tucanos.

coluna de 02.jun.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Sábado, 30 de Maio de 2009

Em defesa das CPIs

O bombardeio que procura desqualificar as CPIs está a serviço de um governo que desdenha do Legislativo e, entre outros vícios, peca pela soberba _confia que será situação para sempre.
As CPIs são um importante fórum de debate, talvez o único de que hoje dispõem o Congresso e a oposição para se contrapor ao arsenal propagandístico do Executivo.
Fossem as comissões tão inúteis, despropositadas ou mero palanque para políticos decadentes _versões que aquela mesma máquina de propaganda difunde_, não seriam feitas tantas reuniões de emergência com o intuito de barrá-las nem manobras tão acintosas para garantir integrantes de confiança. Elas murchariam sozinhas, não?
Erra, também, quem afirma que as CPIs sempre acabam em pizza. Mesmo as mais contestadas ou folclóricas têm dado contribuições.
Instalada por causa da crise nervosa de Ronaldo Fenômeno na Copa de 1998 (!!!), a CPI da Nike acuou os cartolas a tal ponto que galvanizou o fim do passe, a criação de um estatuto de direitos do torcedor e a adoção de uma fórmula justa (e permanente) para o principal campeonato nacional. Incipiente? Só para quem não vive o futebol.
Sem a CPI do Apagão, a Anac estaria ainda mais à mercê do duopólio aéreo. O recente e tão aplaudido "rapa" de apaniguados políticos na Infraero não teria sido possível.
A CPI dos Grampos? Revelou o mercado paralelo de escutas, expôs a falta de rigor técnico e de controle institucional de trabalhos da PF e colocou o Judiciário na berlinda.
Quanto à Petrobras, a CPI prestará um enorme favor, inclusive ao governo federal, caso jogue luz sobre os grandes contratos e o modelo de negócios do petróleo _o Planalto está entre os que se queixam da falta de transparência da estatal.
E, ainda que sucumba ao sabido despreparo (ou à inapetência) dos senadores, a comissão já diminuiu a chance de uso eleitoral da empresa no ano que vem. Não é pouco.

coluna de 29.mai.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Separação de corpos

A Câmara deu um passo relevante ao aprovar o projeto de emenda constitucional que facilita o divórcio, e não apenas pelo interesse que o assunto desperta ou pelo avanço que o texto representa. Depois de muito tempo, o plenário votou algo que nasceu e foi burilado dentro do Congresso, sem a intervenção direta do Planalto.
Desde 2001, as medidas provisórias enviadas pela Presidência dominam a pauta, quando não bloqueiam totalmente os trabalhos do Legislativo. No Senado, elas trancaram 70% das sessões deliberativas no segundo mandato de Lula.
Quando o Congresso esboçava alguma agenda própria, ela logo sucumbia à ditadura das MPs e acabava na gaveta. A Câmara tem hoje 2.000 projetos prontos para votar.
Aos plenários restou chancelar as vontades do governo ou entreter as câmeras de TV. Comissões temáticas perderam sentido. Audiências públicas passaram a ser realizadas só para reunir velhos conhecidos.
A situação chegou a tal ponto que, em dezembro, o presidente da Câmara se espantou ao notar que uma comissão apreciaria um projeto que ele mesmo havia redigido dez anos antes _e do qual nem ele se lembrava.
(Não à toa, as duas Casas se tornaram descartáveis até para lobistas, mais atentos à Casa Civil, de onde são disparadas as MPs.)
Em março, porém, achou-se uma saída jurídica: somente a pauta das sessões ordinárias seguirá trancada pelos decretos presidenciais.
Não seria prudente depositar demasiada esperança no sprint "autoral" de um Congresso cujos líderes fizeram carreira política em submissão ao Planalto _para não falar na ausência de resposta digna do nome aos escândalos recentes.
Eles próprios hesitam em fazer uso do novo entendimento, apesar dos sinais de endosso do Judiciário.A reforma política, por exemplo, prossegue no vai não vai.
Mas o sucesso da PEC do divórcio de certo modo levantou o teto do Legislativo, e isso é um avanço.

coluna de 26.mai.2008

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Efeito colateral

Enfrentar o câncer com determinação e naturalidade pode servir de inspiração a muita gente. Mas o Planalto comete um erro quando, também para aquietar aliados e adversários, martela que a workaholic Dilma Rousseff irá manter intacta a pesada agenda de trabalho durante o tratamento.
Melhor seria deixar em aberto a possibilidade de a ministra se afastar eventual ou mesmo temporariamente da Casa Civil e da campanha para encarar a quimioterapia.
A insistência no mito da mulher-de-ferro tem um efeito colateral: qualquer mudança no visual de Dilma, alteração de última hora em sua programação ou mal-estar devido aos remédios causa uma comoção maior do que a razoável e precipita rumores de que a candidatura está comprometida.
Reservadamente, até governistas que fazem o discurso do otimismo já se agitam em torno do "Plano B".
Sabem que Dilma terá de enfrentar mais dois meses de sessões _mais dois meses de indisposições, de ausência nos palanques e de especulações em torno de sua saúde.
E sabem que, dado o estilo de comunicação adotado até aqui, será mais difícil convencer eleitores e principalmente políticos da viabilidade da candidatura quando a ministra encerrar o tratamento. Os marqueteiros terão de lidar com a desconfiança de que estão escondendo algo. Ou subestimando as chances de uma recidiva do câncer.
Por enquanto, Lula não só matou no peito a inquietação dos aliados como manifestou disposição de dobrar a aposta. "Quanto [ela] mais trabalhar, melhor", disse ontem.
A bem da verdade, seria estúpido autorizar uma operação de desembarque neste momento. Não há um "B" para o "Plano B". E o "Plano A" não parou de subir nas pesquisas.
Em meio a tantas dúvidas, resta só uma certeza: a candidatura de Dilma foi invenção de Lula; sua eventual substituição será outra.

coluna de 22.mai.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

O drible do elástico

O potencial de estrago de uma CPI da Petrobras não depende fundamentalmente dos esforços da oposição nem das suspeitas que pairam sobre a empresa, mas, sim, da decisão do Planalto de continuar ou não a testar a paciência do PMDB, motivo de luta fratricida na base governista no Senado.
Depois de ter acomodado todas as lideranças peemedebistas na máquina federal, Lula sentiu-se à vontade para dispor do aliado como há tempos dispõe de seu próprio partido: sem pedir licença.
Veio de Lula o sinal verde para a candidatura dos petistas Tião Viana à presidência do Senado e Ideli Salvatti à Comissão de Infraestrutura.O Planalto julgava que Renan Calheiros estava morto _ou que não reagiria, agradecido pela operação que lhe salvou o mandato.
Lula não fez restrição, muito pelo contrário, quando o funcionalismo ligado ao PT respondeu à demonstração de força de Renan (o triunfo de José Sarney e Fernando Collor nas votações acima citadas) com denúncias de mau uso das verbas de apoio ao trabalho parlamentar.
O rapa de comissionados na Infraero, que vitimou parentes e amigos de senadores do PMDB, recebeu o endosso prévio do Planalto.
Assim como têm a bênção de Lula as manobras em curso nos Estados para ampliar a presença petista no Senado na próxima legislatura (a linha de frente de defesa de Dilma ou de combate a Serra). Mesmo que à custa de peemedebistas: Fernando Pimentel ou Patrus Ananias para a vaga de Minas hoje com Wellington Salgado; Benedita da Silva ou Lindberg Farias para a cadeira do Rio hoje com Paulo Duque etc.
O presidente sabe que, caso não eleja o sucessor, restará o PT para fazer a defesa irrestrita de seus oito anos de governo _e atazanar a vida do vitorioso. Por isso, aliás, não descarta escalar seu assessor mais próximo para o comando da legenda.Por isso, em resumo, põe à prova a elasticidade do PMDB. A CPI dirá se o elástico estourou.

coluna de 19.mai.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Areia movediça

Veteranos de Brasília baixam a bola. Dizem que a captação "por fora" de doações envolve tanta gente que não restará ninguém para fazer barulho. Lembram o escândalo dos Anões do Orçamento, de 1993, abafado assim que as denúncias ganharam força suficiente para comprometer quase 200 políticos. Pode ser. Mas, ainda que não apareçam provas novas e mais contundentes, o caso Castelo de Areia desenha efeitos importantes sobre as próximas eleições.
1) Procuradores, policiais, jornalistas etc. passarão um pente-fino nos negócios da Camargo Corrêa. A descoberta de superfaturamento na refinaria de Pernambuco foi só um aperitivo. O Rodoanel de São Paulo, o Centro Administrativo de Minas Gerais e a hidrelétrica de Jirau entraram na linha de tiro. Serra, Aécio e Dilma, os pré-candidatos responsáveis por esses contratos, também. A "mãe do PAC", além disso, perderá se o país começar a desconfiar, em geral, dos grandes projetos de infraestrutura.
2) Em tese, os Tribunais de Contas, a boca do caixa dos bancos estatais e os órgãos públicos que tocam contratos de construção civil estarão menos à vontade para operar politicamente em 2010. A ameaça de uma CPI do Dnit, sobre obras viárias, não é mera coincidência.
3) A Justiça deverá exigir mais transparência das doações oficiais (coibindo as contribuições "genéricas" aos partidos) e rigor na prestação de contas dos candidatos.
4) O Congresso terá estímulo para votar a ideia de financiamento público das campanhas, combinado ou não com um teto para as contribuições de pessoas físicas e jurídicas, e a regulamentação do lobby.
5) Quem não estava alavancado para 2010 terá dificuldade de dar a partida agora. A operação da PF tende a inibir o fluxo de doações, no caixa 1 e no caixa 2. Com isso, as máquinas de governo farão como nunca a diferença. Um candidato à Collor, que surja do nada e dispare, ficou ainda mais improvável.

coluna de 13.abr.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Lula lá, cá e acolá

O PT não tinha muita opção. Mas, ao aceitar tão mansamente que Lula escolhesse o candidato à Presidência _e como a aplicada Dilma aos poucos justifica a inventividade do presidente_, o partido perde a condição de se contrapor ao Planalto na definição de outros palanques importantes para 2010.
Lula é quem resolverá o conflito de interesses entre petistas e os governadores Cid Gomes (PSB-CE), Sérgio Cabral (PMDB-RJ) e Eduardo Campos (PSB-PE), aliados em busca da reeleição. Os correligionários Luizianne Lins, prefeita de Fortaleza, Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu, e João Paulo, ex de Recife, deverão se conformar com a disputa pelo Senado.
Caberá ao presidente, também, sanar as rivalidades e decretar quais caciques estarão na cédula em Estados como RS, PR, MS e MT.
Mais importante, Lula cuidará pessoalmente da montagem da chapa petista em São Paulo, base do provável adversário de Dilma.
Antonio Palocci, por ora, é o favorito. Não só porque mantém a estima do presidente, mas também porque agrada a várias alas do PT.
O ex-ministro, porém, depende da boa vontade da Justiça. Precisa ser inocentado do escândalo da quebra de sigilo bancário do caseiro _e logo. Além disso, não se sabe se toparia uma parada que o partido considera quase perdida para José Serra (o próprio ou o candidato dele).
Uma chancezinha, aqui, de o PT retomar as rédeas? Improvável.
Se Lula quiser um palanque sólido para Dilma, poderá escalar Marta Suplicy e perseguir votos com a "dobradinha" de mulheres de fibra.
Se concluir que, em São Paulo, 2010 servirá apenas de trampolim para 2012 na capital, por que não indicar ele próprio o "nome novo" para o salto? (Como, aliás, fez com Marta, derrotada em 1998 e vitoriosa em 2000.)
O PT de raiz torce _e como torce_ para que Lula, depois de ter imposto uma novata para a eleição nacional, não venha exigir o ministro-galã Fernando Haddad (Educação) em São Paulo.

coluna de 26.fev.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Senso de oportunidade

No momento em que a crise econômica torna-se tangível, e mais cruel do que se previa, o país assiste a uma curiosa inversão de papéis. A oposição se cala, e o governo, que em tese poderia ser fustigado pelo acúmulo de más notícias, faz cobranças em público e se esforça para mostrar indignação.
Assim, é Lula quem torpedeia a política monetária que estrangula o crédito _como se os juros estivessem altos à revelia dele. A ministra-candidata Dilma Rousseff foi escalada para dar visibilidade a um evento da Força Sindical que só faltou malhar um boneco do presidente do Banco Central. O tucano Arthur Virgílio, no Senado, saiu em defesa de Henrique Meirelles.
É Lula, também, quem toma o microfone para protestar contra as demissões na Vale e na Embraer, empresas nunca antes neste país tão irrigadas por financiamento público. O dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador, repassado pelo BNDES, acaba pagando as despesas com corte de pessoal. O PSDB? Soltou uma nota para reclamar apoio à iniciativa privada.
Nem o discurso da campanha alckmista de 2006 mobiliza a oposição. A voz mais insistente em favor do controle dos gastos correntes do governo federal (que não param de crescer) é a de Aloizio Mercadante, o novo líder do partido do presidente no Senado. Bizarro.
A retração econômica muda o cenário político. Dificilmente a onda continuísta de 2008 se repetirá no ano que vem. Os governadores terão menos verbas para investir _e, potencialmente, portanto, menos obras para inaugurar. Em vários Estados (Rio Grande do Sul, Paraná, Pará, Alagoas), já dá para antever a troca de guarda em 2010.
Também o Planalto terá de lidar com recursos mais escassos. Estima-se que, só no mês passado, a Receita deixou de recolher R$ 1 bilhão (o orçamento de uma cidade como Ribeirão Preto) devido à crise.
A oposição, que tanto sonhou com a janela de oportunidade, curiosamente se recolheu. Lula não.

coluna de 24.fev.2009

melchiades.filho@grupofolha.com.br

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Falso negativo

A desastrada peça de propaganda de Marta Suplicy merece repúdio, mas não a tática do PT de desconstruir Kassab, fustigá-lo, forçá-lo a confrontar e explicar seu passado.
Uma das notícias destas eleições é o alto número de candidatos desconhecidos, com pouco ou nenhum retrospecto eleitoral, que os caciques partidários escolhem em cima da hora para ampliar ou no mínimo preservar suas zonas de influência.
O próximo prefeito de Belo Horizonte será um deles. Marcio Lacerda "milita" há apenas um ano no PSB _o governador Aécio Neves necessitava de um preposto em um partido intermediário para concretizar a ponte do PSDB com o PT. E Leonardo Quintão (PMDB), seu adversário no segundo turno, marcou a curta carreira de deputado com projetos para outra cidade _Ipatinga, o reduto político do pai.
É natural que a vida e a obra desses e outros "postes" despertem curiosidade e sejam abordadas durante a campanha. Acostumado a votar em pessoas, e não em partidos, o brasileiro tem direito a informações sobre elas. Quintão exagera o "erre" para soar mais mineiro? Lacerda atuou no valerioduto?
Depois da "injúria indireta" de Marta, porém, virou moda rejeitar todo candidato que bate, dizer que a propaganda inquisitiva é influência maldita dos EUA e exigir que os políticos baixem a temperatura e só discutam planos de governo.
Uma seqüência de reportagens na Folha, contudo, revelou o que é essa "agenda positiva": os candidatos invariavelmente copiam programas uns dos outros, reciclam campanhas anteriores e/ou recortam-e-colam idéias implementadas em cidades vizinhas. Há pouca diferença entre as propostas. Todos apelam a platitudes: priorizar a saúde, investir na educação, melhorar o transporte...
Há, ainda, algo de hipócrita no discurso que pede moderação. Em 2010, Dilma Rousseff poderá fazer o papel de Kassab e, com o catálogo do PAC nas mãos, desafiar a oposição a comparar obras. Qual atitude terão os serristas, hoje indignados com o acirramento da campanha? Vão topar um debate "técnico"?
Ora, assim como será legítimo vasculhar e questionar a trajetória e as convicções do "poste" de Lula daqui a dois anos, é legítimo hoje acuar o prefeito que assumiu São Paulo sem receber um único voto.
Eleição é escolha. Precisa de contrastes, não de consensos. Por isso, desde que mantenha a civilidade, a propaganda negativa presta um serviço a quem vota. E não é verdade que ela seja sempre ruim para o desconstruído. Bombardeado pela oposição, João da Costa firmou-se como ator político e garantiu, em Recife, a mais expressiva vitória petista no primeiro turno. Quanto a Kassab, ele resiste na liderança. O eleitor observa, avalia e julga também quem desconstrói.

coluna de 19.out.2008

mfilho@folhasp.com.br

Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Eleição combina voto local com articulações para 2010

O domingo deverá confirmar a máxima de que a oposição não ganha eleições _a situação é que as perde. Segundo as pesquisas, o prefeito bem avaliado se reelegerá ou fará o sucessor.
A hipótese de que prevalecem as demandas cotidianas, as queixas do eleitor e sua opinião sobre a administração que encara as urnas explica a tendência continuísta. O brasileiro em geral se diz satisfeito _com a situação econômica (o crash dos EUA nem respingou nas campanhas), com a inclusão social e de consumo dos anos recentes e, também, com a atuação obreira e eficiente de muitos prefeitos neste quadriênio, anabolizada pela injeção orçamentária no Fundo de Participação dos Municípios.
Pode parecer descabido, diante disso, falar da influência de Lula, da euforia mineira por Aécio Neves ou de qualquer outra força eleitoral que não diga respeito às questões locais.
Fosse decisivo o dedo de Lula, afinal, o Rio não veria subir nas pesquisas justamente os candidatos menos identificados com o presidente (Eduardo Paes e Fernando Gabeira). Fosse automática a transferência dos votos aecistas, também, o PSDB mineiro não estaria na pindaíba, com horizonte de vitória em 7 (e olhe lá) das 28 principais cidades do Estado.
Mas raramente as chapas municipais são montadas como parte de estratégias de manutenção ou tomada de poder restritas às cidades. A razão do voto pode ser local, mas a da articulação política não é.
O Planalto, por exemplo, operou em todo o país para enfraquecer as lideranças nacionais da oposição _e manter sob controle os aliados com ambição majoritária daqui a dois anos. E como desconsiderar a “onda vermelha” se, mesmo que o PT não venha a confirmá-la, ela já pauta os movimentos de todos os partidos?
Não é exagero ou erro, portanto, “federalizar” a análise ou fazer projeções para 2010. As eleições nos municípios fazem parte de alianças ou projetos que poderão pegar embalo ou não _a teia de interesses que a Folha procura retratar nos textos abaixo.

texto de 03.out.2008

O que está em jogo - os Estados


SÃO PAULO
Em momento de popularidade recorde, Lula foi poupado, quando não bajulado, até pelos candidatos de partidos de oposição. Mas, para que sua vitória seja de goleada (ou não seja contestada), o presidente precisa de resultados expressivos no Estado do maior adversário. Daí a ironia: cabe a Marta Suplicy, a quem Lula não vinha tratando com afeto ou deferência, o papel de ponta-de-lança contra o serrismo. O diagnóstico na capital, no entanto, ficará para o segundo turno _Gilberto Kassab (DEM), em ascensão nas pesquisas, poderá despontar como o grande nome destas eleições.

Hoje, as atenções irão para o cinturão em volta da capital. O PT tem boas chances, mas os adversários também, em cidades como São Bernardo, Guarulhos, Diadema e Osasco. No interior, o campo demo-tucano deverá prevalecer na maioria dos grandes municípios, como Ribeirão Preto, Piracicaba, Jundiaí e Bauru. Nos demais, o governador José Serra atuou para ter um pé em chapas favoritas não encabeçadas pelo PT: PMDB em Santos, PSB em São José do Rio Preto e São Vicente...

MINAS GERAIS
Aécio Neves manobrou em duas frentes: em Minas Gerais, para lançar o esboço daquilo que chama de Pós-Lula; fora de Minas, para sabotar as pretensões presidenciais de seu colega tucano José Serra. Tão empenhado, não hesitou em adotar políticas diferentes para o seu partido.

Dentro do Estado, abandonou o PSDB à própria sorte, alienou os parceiros tucanos no cenário nacional e namorou o maior rival. Em Belo Horizonte, 12 siglas integram a coalizão aecista (inclusive o PT), mas não o DEM _o "poste" Márcio Lacerda (PSB) poderá se eleger no domingo. Em outras grandes cidades (Betim, Uberlândia, Montes Claros, Santa Luzia, Ipatinga, Ribeirão das Neves), o PSDB não está nem no páreo _PMDB e PT deverão colher mais vitórias.
Fora do Estado, o governador fez o que pôde para agradar os caciques tucanos, de Tasso Jereissati a Geraldo Alckmin, desde que antipáticos ao serrismo.
O prefeito Fernando Pimentel comprou briga dentro do PT ao bancar o pacto com Aécio na capital, mas fortaleceu-se para o governo em 2010 _se os petistas negarem legenda, sempre haverá o PSB para chamar de seu.

RIO DE JANEIRO
Sérgio Cabral tem a perspectiva de eleger o prefeito do Rio, façanha que um governador não obtém há 23 anos no Estado. O candidato do PMDB, Eduardo Paes, está na frente nas pesquisas _ele astutamente centrou a campanha na saúde (maior problema na percepção do eleitor local) e beneficiou-se do perfil de bom moço, fácil de contrapor a rivais tão carismáticos e/ou "rejeitáveis" como Marcelo Crivella (PRB) e Jandira Feghali (PC do B).

Na reta final, as pesquisas detectaram a subida do tucano-verde Fernando Gabeira. Ainda que haja essa reviravolta no segundo turno, Cabral terá colecionado golaços: tratorou o prefeito Cesar Maia e seu partido (DEM), convenceu as alas do PMDB fluminense a se unirem em torno dele e, sem se queimar com os caciques tucanos (Aécio e Serra são "amigos do peito"), tornou-se o embaixador de Lula no Sudeste. Garantiu que, na sucessão presidencial, será voz influente.
O PMDB também vislumbra vitórias em outras grandes cidades, como Campos (a volta do casal Garotinho) e Volta Redonda, e se acotovela com o PT na Baixada Fluminense.

ESPÍRITO SANTO
É considerada certa a reeleição de João Coser (PT) em Vitória já no primeiro turno. Resta saber se o prefeito se sentirá tentado a buscar o governo capixaba em 2010 _e se o governador Paulo Hartung (PMDB) topará dar ao petista o controle da teia suprapartidária que costurou no Estado (de fazer inveja a Aécio Neves). O vice-governador, Ricardo Ferraço (PSDB), estava na fila... Por enquanto, outro tucano, o ex-prefeito da capital Luiz Paulo Velloso Lucas, é a única figura importante a contestar a grande "concertação".

PARANÁ
As manchetes já estão prontas para o triunfo do prefeito tucano Beto Richa em Curitiba, com reeleição fácil no primeiro turno, caminho livre para tentar o governo do Estado daqui a dois anos e autoridade para palpitar na escolha do candidato do PSDB à Presidência. Mas digno de nota, também, é o esfacelamento da rede política que Roberto Requião montou em oito anos de administração. Como Quércia em São Paulo, o governador matou seu partido: o PMDB não lidera em nenhuma das grandes cidades paranaenses. Requião joga tudo pelo Senado em 2010, possivelmente em composição com o PT, o que põe em risco a reeleição de Osmar Dias (PDT). À margem _e à espera de um eventual tombo tucano e/ou de um furacão Dilma_, o PT trabalha(rá) para fixar o nome e a imagem de Gleisi Hoffmann.

SANTA CATARINA
O mau momento do governador Luiz Henrique (PMDB), preocupado em preservar o mandato (contestado na Justiça) e viabilizar sua ida ao Senado em 2010, abriu o cenário. Jorge Bornhausen (DEM) fará provavelmente a última tentativa de retomar a hegemonia no Estado. Para isso, forjou uma geração de candidatos competitivos nas grandes cidades, como Florianópolis, Joinville, Blumenau e Chapecó. O PT catarinense, que perdeu terreno em 2006, sem êxito implorou um contra-ataque de Lula. Vitórias de Bornhausen aumentarão a chance de o DEM liderar uma "tríplice aliança" (com PSDB e PMDB) antipetista em 2010. Já a reeleição do prefeito Dário Berger, em Florianópolis, dará poder de barganha ao PMDB. O ex-governador Esperidião Amin (PP) joga na capital as fichas que lhe restam.

RIO GRANDE DO SUL
O PT montou chapas competitivas nas maiores cidades (Caxias, Pelotas, Canoas etc). Mas nada aliviará o desastre que as pesquisas ainda não descartam em Porto Alegre: o partido de fora do segundo turno após 20 anos. Manuela D’Ávila (PCdoB), e não só a petista Maria do Rosário, tirou proveito da crise de corrupção que desgastou o governo do PSDB e hoje tem chances de enfrentar José Fogaça (PMDB), um prefeito que não empolga a capital. Ainda que escape do fiasco no domingo, o que é provável, o PT notou que, para viabilizar o plano de liderar uma coligação e retomar o Estado em 2010, no mínimo terá de escolher alguém com trânsito nos outros partidos de esquerda. Ou rezar para que a campanha de Dilma Rousseff à Presidência seja avassaladora a ponto de dobrar todo o Rio Grande do Sul.

BAHIA
Previu-se que o espólio de Antonio Carlos Magalhães ficaria entre o governador Jaques Wagner (PT) e o ministro Geddel Vieira de Lima (PMDB). O pós-carlismo, porém, poderá ter outro ACM: o deputado Neto (DEM), que aparece embolado na briga pelo segundo turno com dois nomes da base lulista _João Henrique (PMDB) e Walter Pinheiro (PT). No interior, Jaques & Geddel farão a festa. Lula pôs em risco a parceria ao interferir em algumas cidades, mas o pragmatismo de Geddel deverá prevalecer, agora e em dois anos _no cenário mais provável, sairá para senador e apoiará a reeleição de Jaques (José Gabrielli, presidente da Petrobras, poderá completar a chapa ao Senado). O ex-governador César Borges (PR, ou DEM enrustido) manterá algumas prefeituras e se fixará como azarão para 2010.

CEARÁ
As eleições poderão culminar com novo revés político de Tasso Jereissati (PSDB), o recolhimento de Ciro Gomes (PSB) e a consagração de Luizianne Lins (PT). Tudo dependerá da (provável) vitória em primeiro turno da prefeita petista de Fortaleza. Tasso e Ciro apostaram em Patrícia Saboya (PDT), mas a senadora jamais passou do 3º lugar nas pesquisas. Reeleita, Luizianne se firmará como um dos pólos da política estadual e porá em risco a hegemonia dos irmãos Gomes (Ciro e o governador Cid, apoiados por Tasso). Ciro bateu muito na prefeita nas últimas semanas, aparentemente convencido de que o PT não aceitará ser coadjuvante no projeto presidencial dele. O deputado termina a campanha com farol baixo, falando em sair como vice genérico de chapa lulista em 2010 (de Dilma, de Aécio, tanto faz).

PERNAMBUCO
A eleição em Recife, que foi parar na Justiça, tem potencial para reconfigurar o cenário político do Estado. Até aqui, o governador Eduardo Campos (PSB) colheu a maior parte dos frutos do lulismo no Estado. Destruiu as bases do ex-governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) e acuou DEM, PSDB e PPS. Se eleger no primeiro turno o "poste" João da Costa, porém, o prefeito João Paulo (PT) terá cacife para vôo mais ambicioso _talvez, idêntico ao de Campos. Armando Monteiro Neto, presidente da Confederação Nacional da Indústria e deputado do PTB, sairá para o Senado e poderá ser o fiel da balança no duelo lulista (ou a argamassa da coalizão). Outros líderes históricos, como os senadores Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB), vêem diminuir em 2008 as chances de reeleição daqui a dois anos.

MARANHÃO
O confronto entre as forças pró-Sarney e anti-Sarney de novo dá o tom das eleições. O governador Jackson Lago (PDT) apostou no PSDB contra a tentativa do ex-presidente de retomar as principais cidades e alavancar a candidatura da filha, a senadora Roseana, ao governo do Estado em 2010. Tucanos com apoio de Lago lideram em São Luís, Imperatriz e Açailândia, por exemplo. Para impedir a vitória no primeiro turno de João Castelo na capital, Sarney ungiu a candidatura do comunista Flávio Dino.

ALAGOAS
Cícero Almeida (PP) deverá se reeleger em Maceió, possivelmente com a maior votação proporcional das capitais, e carimbar o passaporte para a disputa do governo, hoje nas mãos do tucano Teotônio Vilela Filho. Renan Calheiros (PMDB) pensa na sua recondução ao Senado e já não descarta compor com o prefeito. Fernando Collor (PTB), outro aspirante a 2010, dedica-se à eleição do filho em Rio Largo. Na capital, a presidenciável Heloísa Helena (PSol) tenta se eleger vereadora e retomar a vida pública.

RIO GRANDE DO NORTE
O PSB da governadora Wilma de Faria, o PMDB do presidente do Senado, Garibaldi Alves, e o PT se uniram com um único propósito: dinamitar os alicerces de José Agripino (DEM). O algoz do governo Lula no Senado, porém, contra-atacou em alto estilo. Sua afilhada política, Micarla de Sousa, vestida com o verde do PV, decolou em Natal. Confirmada a vitória dela, o senador terá mantido chances de renovar o mandato em 2010. Daí Lula ter resolvido fazer comícios na capital potiguar na última semana.

PIAUÍ
Tudo parece encaminhado em Teresina. Sílvio Mendes (PSDB) deverá renovar o mandato, talvez neste domingo, e já faz planos para o governo do Estado. Com isso, a votação mais interessante se dará em Parnaíba. Lula mandou, e o PT obedeceu: apoiou o PTB para tentar bater a mulher do senador Mão Santa, do PMDB não alinhado ao Planalto. Não se trata só de picuinha. O objetivo é amestrar o PMDB do Piauí em torno do governador petista Wellington Dias e de uma chapa antitucana em 2010.

PARAÍBA
Com 74% de ótimo/bom no Datafolha, Ricardo Coutinho (PSB) deverá se reeleger no primeiro turno em João Pessoa. Enxotado em 2003 do PT (que hoje procura colar nele), o prefeito da capital tem tudo para aproveitar em 2010 o vácuo de poder que o governador Cássio Cunha Lima (PSDB) deixará _acusado de fazer uso eleitoral de verbas públicas, ele luta na Justiça para terminar o mandato. Em Campina Grande, a votação só terá um desfecho no TSE. Motivo? Uso eleitoral de verbas públicas.

SERGIPE
A fatura em Aracaju parece liqüidada. Homem de confiança do governador Marcelo Déda (PT) e primeiro militante do PC do B a administrar uma capital brasileira (assumiu a prefeitura quando o petista se lançou ao governo), Edvaldo Nogueira deverá ganhar já no primeiro turno. Dois caciques da política local, Albano Franco (PSDB) e Jackson Barreto (PMDB), já se conformaram e aderiram à "onda vermelha". O ex-governador João Alves Filho (DEM) marca posição com um "anticandidato" (o genro).

GOIÁS
As eleições giram em torno de ex-governadores. O Planalto fixou a meta de lançar candidatos fortes nas principais cidades e desmontar as bases de Marconi Perillo, hoje senador pelo PSDB. Em Goiânia, é considerada certa a vitória em primeiro turno de Íris Rezende (PMDB), com apoio do PT. Maguito Vilela (PMDB) também deverá emplacar no domingo em Aparecida. O xadrez de 2010, contudo, aguarda a decisão do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que cogita sair para o governo.

MATO GROSSO
O afilhado do governador Blairo Maggi (PR) ameaça levar ao segundo turno a eleição em Cuiabá, que parecia selada em favor do prefeito (e aspirante a governador) Wilson Santos (PSDB). Uma candidatura do PP, também da base, impediu o mergulho de Lula _e o tucano aproveitou e pôs uma irmã do presidente na sua propaganda de TV. A prioridade de Maggi, no entanto, é Rondonópolis, seu reduto eleitoral. Jayme Campos (DEM), provável rival ao Senado em 2010, tenta dar o troco em Várzea Grande.

MATO GROSSO DO SUL
Terceiro prefeito mais bem avaliado do país (78% de ótimo/bom no Datafolha), Nelson Trad deverá ter uma reeleição tão tranqüila que a única campanha que hoje mobiliza Campo Grande é para ser cidade-sede da Copa-2014. Como o governador André Puccinelli é do mesmo partido (PMDB), também ostenta índice alto de aprovação e está no primeiro mandato, as chances de turbulência até 2010 são pequenas. O PT, que comandou o Estado de 1999 a 2006, deverá fazer figuração nas principais cidades.

TOCANTINS
A equilibrada eleição em Palmas reproduz as três pontas do embate político do Estado: o PT, que tenta reeleger Raul Filho e viabilizar uma aliança para 2010; o PSDB, que banca um candidato do PV com o objetivo de pavimentar a volta ao poder do clã Siqueira Campos (o ex-governador e seu filho, ex-senador); e o DEM, que relançou a ex-prefeita Nilmar Ruiz com a ambição de clonar a campanha que elegeu a senadora Kátia Abreu em 2006 e cimentar a parceria com o governador Marcelo Miranda (PMDB).

PARÁ
O 5 de outubro será um teste para o casamento do PT com o PMDB de Jader Barbalho, que, em 2006, conduziu a petista Ana Júlia Carepa ao governo do Estado. Em Santarém (PT) e Ananindeua (PMDB), os partidos se uniram e têm chances de ganhar. Em Belém, porém, lançaram candidatos próprios e hoje correm o risco de nem chegar ao segundo turno. A divisão facilitou as coisas para a oposição. As pesquisas põem Valéria Pires Franco (DEM) no tira-teima contra o prefeito Duciomar Costa (PTB).

AMAZONAS
Ainda que seu candidato em Manaus, Omar Aziz (PMN), contrarie as pesquisas e evite ser varrido no primeiro turno, Eduardo Braga (PMDB) sairá das eleições preocupado com a perspectiva de fazer o sucessor: 1) Seu antecessor, Amazonino Mendes (PTB), ressurgiu como favorito na capital; 2) O PT não só lançou vôo solo como usou a campanha para apedrejar o governador; 3) O ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento (PR), outro que sonha com 2010, planta votos com a inauguração de obras do PAC.

RORAIMA
Na capital, Boa Vista, a recondução ao cargo de Iradilson Sampaio (PSB) é considerada segura _ele tem o dobro das intenções de voto do deputado Luciano Castro (PR). Por isso a eleição mais interessante do Estado menos populoso do país acontecerá em Pacaraima, na reserva Raposa/Serra do Sol. O prefeito Paulo César Quartiero (DEM), líder dos arrozeiros e defensor da revisão da demarcação contínua do território indígena (em análise pelo Supremo Tribunal Federal), busca outro mandato.

ACRE
A hegemonia do PT deverá sair das eleições sem arranhão. Seja por conta da reeleição de Raimundo Angelim em Rio Branco, prevista com larga vantagem. Seja por conta do não-aparecimento de liderança capaz de galvanizar a oposição. Os irmãos Viana preparam, desse modo, o banquete em 2010: o senador Tião é nome certo do partido ao governo do Estado e o ex-governador Jorge não descarta tentar o Senado (talvez em ambiciosa dobradinha petista com o atual governador, Binho Marques).

RONDÔNIA
O início das obras da usina de Santo Antônio, no rio Madeira, poderia agitar a votação em Porto Velho. A economia local vive um boom, a infra-estrutura corre risco de colapso com a invasão de mão-de-obra e há uma série de alertas de riscos ambientais. Nada disso, porém, pareceu influir no cenário eleitoral. Roberto Sobrinho (PT), em aliança com o PMDB do senador Valdir Raupp, não deverá ter trabalho para renovar o mandato e impor nova derrota ao grupo do governador Ivo Cassol (sem partido).

AMAPÁ
Macapá é uma das poucas capitais em que está selada uma troca de guarda. Tudo por conta da desastrosa administração do petista João Henrique, a mais mal avaliada do país segundo o Datafolha (somente 11% de ótimo/bom). Camilo Capiberibe (PSB), filho do ex-senador João e da ex-deputada Janete, ambos cassados em 2004 sob a acusação de compra de votos e que procuram voltar à cena, e Roberto Góes (PDT), primo do governador Waldez (PDT), alternam-se na liderança nas pesquisas de intenção de voto.

texto de 03.out.2008

O que está em jogo - os partidos


PT
O Planalto fixou três grandes metas nesta eleição: 1) sabotar as lideranças nacionais não-petistas; 2) assegurar o sucesso de ao menos um partido aliado nos principais municípios; 3) promover o crescimento das prefeituras petistas, tanto nas metrópoles como nas cidades pequenas. De sua parte, o PT fixou uma meta: obedecer cegamente o Planalto. O partido enfrenta as votações com uma unidade sem precedentes. Conhecido pela luta fratricida entre suas correntes, agarrou-se como pôde à popularidade recorde de Lula, aplaudiu o "dedazo" de Dilma Rousseff para 2010 e, em alguns casos, como Goiânia, topou alianças inimagináveis no passado.
Há chances de uma "onda vermelha" nas urnas. Mas, para que ela se confirme, o partido precisa: 1) saltar dos 400 municípios atuais para quase 700 e se consolidar como o substituto do PFL no interior; 2) crescer nas grandes cidades e capitais, para garantir palanques para 2010 e se contrapor ao "W.O." em Belo Horizonte e à ameaça de vexame em Porto Alegre (risco de ficar de fora do segundo turno após 20 anos); 3) conquistar posições em São Paulo, o território de José Serra, pré-candidato com mais musculatura contra o lulismo.

PSDB/DEM
Aliados antigos, PSDB e DEM jogaram de olho em 2010 _por estratégia, por afoiteza e/ou porque sabiam que o rolo compressor de Lula viria em 2008.
Os tucanos não resistiram à perspectiva de eleger o próximo presidente e racharam entre Serra e Aécio. Já os democratas, com o esfacelamento de suas bases no Nordeste e a derrocada de Cesar Maia no Rio, trabalhou para projetar nomes para as próximas majoritárias.
Com objetivos tão distintos, os partidos largaram como adversários em 14 capitais _diretamente em 4 e em coligações distintas em 10. Do mesmo lado, estão em apenas 11 _e, ainda assim, em 5 apoiaram outra sigla. Só em Curitiba, Teresina, Belém, Florianópolis, João Pessoa e Rio Branco um topou apoiar o outro na cabeça de chapa _com horizonte de vitória só nas quatro primeiras.
Em São Paulo e Salvador, os vôos solos resultaram em ataques mútuos duríssimos. Mas é curiosamente nessas cidades que os dois partidos depositam as esperanças de virar o jogo. Dando Kassab (ou Alckmin) em São Paulo e ACM Neto em Salvador, o PT não terá crescido como pretendia nas capitais _e a oposição terá assegurado palanques importantes para se reaglutinar em 2010.

PSB/PDT/PC do B
No varejo, cada um dos três partidos deverá sair das eleições com algo do que se gabar. O PSB exaltará a vitória em Belo Horizonte (apesar do candidato escolhido pelo tucano Aécio) e das reeleições em João Pessoa e Boa Vista. O PC do B falará do triunfo em Aracaju e, no mínimo, da empolgante campanha em Porto Alegre. O PDT dirá que sobreviveu ao escândalo que pilhou um de seus líderes (Paulinho Pereira) e assegurou cidades importantes como Campinas e Niterói.
No atacado, no entanto, o chamado "bloquinho" não deverá alcançar as metas que fixou no início do ano: 1) Não terá reforçado sua posição dentro da coalizão de Lula nem contido o ímpeto "hegemonista" do PT (sob todos os aspectos, o partido do presidente avançará); 2) Não terá avançado como um bloco nas prefeituras (nas grandes cidades, os vôos solos foram mais numerosos do que as candidaturas em conjunto); 3) Não terá divulgado o nome de Ciro Gomes à sucessão presidencial (diante dos sinais de Lula na direção de Dilma Rousseff, o deputado cearense preferiu se recolher, não se indispor com o PT nacional e mergulhar na campanha em seu Estado, sobretudo para evitar/adiar o revés em Fortaleza).

PMDB
O cenário é bem diferente para o partido que faturou todas as capitais nas primeiras eleições municipais pós-ditadura. O PMDB saberá só no segundo turno se cresceu nos municípios _ou se não encolheu. Dentre as capitais, é dada como certa a reeleição apenas em Goiânia e Campo Grande. No Rio, em Florianópolis, em Salvador e em Porto Alegre, o resultado ficará para o dia 26. Algo, de certa forma, frustrante, já que o partido se encastelou como nunca no governo Lula e, apesar da crise que abateu Renan Calheiros, conservou o controle do Senado (e, junto com o Planalto, da pauta legislativa).
Por vezes, o PMDB pareceu mais empenhado em negociar o controle da Câmara a partir de 2009 do que em avançar sobre as prefeituras. (Deverá trabalhar no Congresso para reabrir janelas para o troca-troca partidário e, dessa forma, seduzir eleitos por outras siglas.) Talvez tenha sido uma apatia tática, para não se indispor com ninguém e poder oferecer o vice tanto da chapa lulista quanto da tucana em 2010.
Por fim, as eleições marcam uma inflexão na carreira de alguns caciques. Novos líderes emergem nos seus redutos ou mesmo no partido, caso do governador Sérgio Cabral (RJ).

texto de 03.out.2008

O que está em jogo - os presidenciáveis


SE VOCÊ É DILMA, TORÇA PARA QUE...
...o PT aplique uma "onda vermelha" nas grandes cidades
(assegurará a ela palanques/máquinas para a campanha presidencial)
...o segundo turno não tenha muitos duelos de partidos aliados
(garantirá à ministra mais comícios neste ano, aumentando sua exposição)
...Heloísa Helena não se eleja vereadora em Maceió
(manterá fora do circuito a possível puxadora de votos de esquerda de 2010)

SE VOCÊ É SERRA, TORÇA PARA QUE...
...Gilberto Kassab não perca o embalo e vença em São Paulo
(indicará que o governador também consegue eleger um "poste")
...o PSDB ganhe ao menos uma das cidades petistas da Grande SP
(mostrará que a "onda vermelha" foi no máximo cor-de-rosa no Estado)
...ACM Neto e Fernando Gabeira avancem em Salvador e no Rio
(poderá reforçar pontes com outras siglas e fazer campanhas fora de SP)

SE VOCÊ É AÉCIO, TORÇA PARA QUE...
...Geraldo Alckmin opere o quase-milagre de ir ao segundo turno
(encorajará, no quintal de Serra, a ala do PSDB que não gosta de Serra)
...o PT avesso à concertação mineira não ganhe cidades importantes
(diminuirá as resistências petistas a uma nova aliança no Estado em 2010)
...o PMDB leve a melhor nos principais confrontos com o PT
(fortalecerá um partido da coalizão lulista bem mais fácil de seduzir)

SE VOCÊ É CIRO, TORÇA PARA QUE...
...Luizianne Lins não triunfe logo de cara em Fortaleza
(impedirá a consagração da prefeita como liderança cearense)
...Manuela D’Ávila passe para o segundo turno em Porto Alegre
(mostrará que o "bloquinho" de esquerda pode se contrapor ao PT)
...o PT não capitalize sozinho o lulismo no interior do Nordeste
(terá margem de manobra no seu principal reduto eleitoral)

SE VOCÊ ESTÁ CANSADO DESSES NOMES, TORÇA PARA QUE...
...Marta Suplicy arranque e fature já no primeiro turno em São Paulo
(dará à prefeita "legitimidade" para se oferecer como opção a Dilma)
...Sérgio Cabral vença na maioria dos grandes municípios do Rio
(incentivará o PMDB a pensar em arriscar um vôo solo daqui a dois anos)
...o PT ganhe em Salvador e goleie o PMDB no interior da Bahia
(aumentará o cacife nacional do governador petista Jaques Wagner)

texto de 03.out.2008

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Emergência

A duas semanas da votação, já é possível identificar três políticos regionais que ganharam, na campanha de 2008, o direito de jogar o xadrez de 2010: Beto Richa, João Paulo e Sérgio Cabral.
Com uma aprovação (81%) de causar inveja a Lula, o prefeito de Curitiba não só caminha para a reeleição como se cacifa para tomar o Estado. A perspectiva de vitória do tucano daqui a dois anos é tamanha que o governador Roberto Requião (PMDB) já negocia a "transição".
Para o PSDB, a próxima empreitada de Richa será estratégica, por representar uma barreira no Sul ao candidato de Lula ao Planalto. Serra e Aécio não vão se assanhar em 2010 sem o apoio do paranaense.
Em Recife, João Paulo acertou ao confiar em seu taco (59% de ótimo/bom) e apostar no secretário do Orçamento Participativo, programa que mobilizou 12% das verbas municipais e 30% dos habitantes. Seu "poste", João da Costa, tende a vencer já no primeiro turno.
O resultado dará ao prefeito legitimidade para controlar o PT pernambucano e desafiar a reeleição do aliado Eduardo Campos (PSB). É possível que, para evitar o duelo, Lula faça de João Paulo ministro. Mas, precavido, o governador, ele próprio um emergente em 2006, já trabalha seu nome para vice na chapa de Dilma _atropelando o projeto do correligionário Ciro Gomes.
Cabral deve eleger o prefeito do Rio _o que um governador não consegue há 23 anos no Estado. Eduardo Paes sobressai, até pela falta de graça, em meio a tantos postulantes "rotuláveis" (evangélico, pró-maconha, pró-aborto, coroinha...).
Ainda que dê zebra no segundo turno, Cabral terá colecionado sucessos: ejetou o prefeito Cesar Maia (DEM), uniu sob seu comando as três alas do PMDB fluminense, selou trégua com o PT, satisfez a banda podre da Assembléia Legislativa e agradou os poderosos ao inventar um candidato "palatável". Tudo isso sem fechar portas para si próprio. Poderá abraçar Aécio, Dilma, Serra, tanto faz. Todos vão procurá-lo.

coluna de 19.set.2008

mfilho@folhasp.com.br

Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

ABC do PT

O mergulho de Lula nas eleições da Grande São Paulo, notadamente o corpo-a-corpo que fez (e voltará a fazer) no ABC, nada tem de folclórico ou saudosista.
O duro confronto com José Serra pela hegemonia política no Estado dá-se no cinturão em torno da capital, e não somente nela.
As pesquisas mais recentes e sérias nos 20 municípios com mais de 200 mil habitantes (onde pode haver segundo turno) mostram que:
1) PSDB e DEM, os dois partidos de Serra, devem golear no interior, mantendo sete de suas oito cidades do G-20 e conquistando outra.
Em Piracicaba, Mogi das Cruzes, Jundiaí, Franca e Sorocaba, é provável uma vitória já no primeiro turno. Assim como em Bauru, que em 2004 havia prestigiado o PDT.
Nas duas administrações menos populares do PSDB, deu-se um jeito. Em São José dos Campos, o prefeito refez-se das críticas ao novo sistema de ônibus e abriu vantagem. Em Ribeirão Preto, o DEM "já ganhou" com sua candidata.
Carapicuíba pinta como a única baixa tucana. O prefeito deixou que a base saísse dividida _e, nela, o nome do PMDB aparece mais forte.
2) O PT não terá tanta moleza para preservar suas quatro cidades, que dirá ampliar presença no G-20.
O sucesso em Santo André parece provável, mas não logo de cara. Tudo segue em aberto em Guarulhos e em Osasco, com empates na liderança e certeza de segundo turno.
Triunfos petistas no dia 3 tendem a ocorrer em Diadema e em Mauá, atualmente administrada pelo PV.
De resto, o partido compete em mais três páreos. Tem boa chance em São Bernardo (hoje do PSB), com o ex-ministro Luiz Marinho, e é zebra em São José e Carapicuíba.
3) Com a exceção de Guarulhos, quem ameaça as ambições petistas no G-20 é exatamente o PSDB.
Não tivesse o PT envolvido o presidente e acionado dois ministros, a imprensa hoje estaria especulando a aflição do partido no Estado, e não falando de "onda vermelha".

coluna de 16.set.2008

mfilho@folhasp.com.br

Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

BR distribuidora

Lula negou à Petrobras o controle dos poços porque ela deve satisfações aos acionistas, e não ao presidente da República. Mas é justamente isso que faz da empresa a favorita ao papel de ponta-de-lança do governo no pré-sal.
A Petrobras é uma caixa-preta. Que o diga o Tribunal de Contas da União, cujas auditorias já detectaram sobrepreço, despesas com consultorias fictícias, escolhas de fornecedores sem respaldo técnico, aditivos inexplicados e outras irregularidades sob a ótica da Lei das Licitações (número 8.666/93).
A Petrobras, porém, usa sempre um argumento para rebater as acusações e evitar constrangimentos: por ser uma "sociedade de economia mista", com participação de capital privado, não tem que submeter todos os contratos à 8.666. Amparada em decisões da Justiça (baseadas em decreto baixado por FHC), ela alega que precisa de agilidade para fazer frente à concorrência. Na área de serviços, por exemplo, estima-se que não licitou 40% do gasto no governo Lula até 2007.
(Talvez isso explique por que ela tenha virado alvo da Polícia Federal e freqüentado o noticiário de escândalos, do mensalão à Navalha, de Sílvio "Land Rover" Pereira a Duda "Paraíso Fiscal" Mendonça.)
É difícil acreditar que o Planalto não venha a se interessar pela elasticidade operacional que o status de "sociedade mista" garante. A Petrobras significaria um atalho para encomendar plataformas, navios, insumos etc. (e, também, para atender lobbies, distribuir favores etc.).
Na avaliação de técnicos do TCU, a entrada imediata em jogo de uma estatal "pura", sujeita a mais regras e burocracias, poderia atrasar em mais de uma década o começo da produção, previsto para 2015/20.
Uma opção seria mudar a lei. Outra, menos trabalhosa, seria guardar a PetroSal para gerir a extração e o caixa, após instalada _ou encaminhada_ a infra-estrutura. A fala de Lula no 7 de Setembro, elogiosa à Petrobras, terá sido um sinal?

coluna de 12.set.2008

mfilho@folhasp.com.br

Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Alto lá, Lulalá!

É precipitado dizer que as campanhas municipais têm se curvado à influência de Lula.
Muitos se impressionam porque candidatos da base do presidente lideram as pesquisas em 20 das 26 capitais. Esquecem, porém, que ela já administra 21. Do ponto de vista estritamente numérico, o Planalto ainda não tem muito a celebrar.
Pouco se falou, também, que os partidos pró-Lula lançaram 94 nomes para prefeito nas capitais. 94! (Apenas em Teresina a coalizão se uniu em torno de um postulante.)
Não há, e dada a quantidade, nem poderia haver homogeneidade na relação de Lula com todos os candidatos de PT, PMDB, PSB, PDT, PC do B, PTB, PR, PP, PRB, PV, PSC, PMN, PHS, PT do B, PTC e PRTB.
Micarla de Souza, que desponta em Natal, por exemplo, é ligada a José Agripino Maia (DEM), um dos mais ferrenhos críticos do governo federal. Contudo, por ser filiada ao PV, ela foi parar na lista das "barbadas" lulistas nas capitais.
Do mesmo modo, como atribuir ao presidente a ascensão de Eduardo Paes? Só porque o ex-pefelista e ex-tucano (além de verdugo na CPI dos Correios) aderiu ao PMDB? No Rio, Lula fechou desde o início com Marcelo Crivella (PRB) _e é este quem tem caído nas pesquisas.
Ou tome-se Belo Horizonte. O presidente só desceu do muro depois que Márcio Lacerda (PSB), cria do tucano Aécio Neves, decolou. Era Jô Moraes (PC do B) quem distribuía santinhos do petista.
Lula esbanja popularidade, mas o diferencial do voto nos municípios por enquanto é local: bem avaliado, o prefeito garante a dianteira (sua ou de seu representante); mal avaliado, cede terreno à oposição.
O único "efeito Lula" palpável até aqui, portanto, precedeu a campanha e dela independe: a articulação que pôs 16 partidos no colo do presidente.
O "efeito Lula" eleitoral só será comprovado no segundo turno, se aplicadas surras no carlismo em Salvador e no nome de Serra (Gilberto ou Geraldo) em São Paulo.

coluna de 09.set.2008

mfilho@folhasp.com.br

Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Grampo legal

Ainda que o futuro possa lhe reservar algum tipo de constrangimento, o governo só tem a comemorar com a escandalização do uso de escutas telefônicas.
Confira o que de concreto ocorreu desde o começo das denúncias de desrespeito às liberdades individuais e das reações indignadas:
1) Foi escanteado o delegado que pretendeu investigar os negócios de Daniel Dantas, as relações íntimas do empresário com o Planalto e o acordo de indenização que permitiu ao governo levar adiante a idéia de criar a supertele nacional.
2) A Polícia Federal repaginou a Operação Satiagraha. Fechou foco nos indícios de fraude financeira do Banco Opportunity e esqueceu outras ambições do inquérito original, como tráfico de influência e a fusão da Brasil Telecom com a Oi.
3) Dantas e seus principais assessores saíram da prisão. Não têm mais motivos para abrir a boca.
4) Lula conseguiu nomear o quinto conselheiro da Anatel para dar o voto de minerva em favor da BrOi.
5) Foi afastado o diretor que construiu a "PF republicana", aplaudida por não discriminar investigados _o que possibilitou que o irmão do presidente caísse num grampo pedindo "dois pau pra eu".
6) A pretexto de impedir exageros de arapongagem, a PF recebeu ordens para tratorar a corporação e centralizar a inteligência. A apuração do dossiê produzido na Casa Civil contra FHC foi abandonada.
7) Um ex-funcionário de Dantas assumiu o comando da Abin.
Resumo: o Planalto não só preservou a negociação (e os negociadores) da BrOi como diminuiu a possibilidade de voltar a ser incomodado por escutas telefônicas.
Judiciário, Legislativo e sociedade civil exigiram o direito à privacidade. Com a degola de Lacerda e Protógenes, Lula garantiu o dele.
Talvez esteja aí a explicação para a reação enérgica e rápida de um presidente que costuma defender os colegas pilhados em atos ilegais e recomendar paciência nas crises.

coluna de 05.set.2008

mfilho@folhasp.com.br

Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Inimigos íntimos

A parceria que deu sustento a FHC não deverá sair das eleições municipais com a coesão desejada para dar o troco em Lula.
PSDB e DEM se estranharam já na negociação das candidaturas. A estratégia vislumbrada para 2010 não resistiu aos paroquialismos.
Os dois partidos largaram como adversários em 14 capitais. Enfrentam-se diretamente em 4 e participam de coligações rivais em 10.
Do mesmo lado, eles estão em 11. Ainda assim, em 5 endossaram uma terceira agremiação. Somente em Belém, Curitiba, Florianópolis, João Pessoa, Rio Branco e Teresina um partido aceitou apoiar um nome do outro na cabeça de chapa.
A campanha, claro, ampliou a distância. E não só em São Paulo, onde a desidratação de Geraldo Alckmin (PSDB) e o crescimento de Gilberto Kassab (DEM) dinamitaram a base tucana irremediavelmente.
Em Salvador, por exemplo, ACM Neto (DEM) torce desabridamente contra Antonio Imbassahy (PSDB) e para ter outro oponente no segundo turno _ao passo que o tucano, curiosamente, virou a aposta do governador petista Jaques Wagner para barrar o retorno do carlismo.
Em Fortaleza, onde o DEM tem chance com Moroni Torgan, o PSDB reforça a militância de Patricia Saboya (PDT). Em Cuiabá, onde a vitória de Wilson Santos (PSDB) parecia certa, o apoio do DEM a Walter Rabello (PP) aumenta a possibilidade de segundo turno.
Fossem boas as perspectivas desses vôos separados, não seria difícil uma reaproximação pós-outubro. As pesquisas, contudo, põem tucanos e democratas no páreo em apenas 9 capitais _com 3 barbadas (tucanos em Curitiba, São Luís e Teresina). O PT, sozinho, crava 8 e 4.
Não à toa, FHC voltou a defender a chapa puro-sangue Serra-Aécio (não necessariamente nessa ordem), e o DEM, a falar em "anticandidato" _o governador José Roberto Arruda (DF) ou a senadora Kátia Abreu (TO), a depender do perfil da campanha de Dilma Rousseff.

coluna de 02.set.2008

mfilho@folhasp.com.br