terça-feira, 31 de maio de 2011

Os miseráveis

O Planalto comete um erro e uma injustiça ao tratar o Brasil sem Miséria como item da "agenda positiva" para diminuir o desgaste político do "Paloccigate".
Colocar de pé o principal projeto de Dilma na área social é algo mais difícil, e mais importante, do que tentar justificar as peripécias financeiras do ministro da Casa Civil.
Primeiro, porque o governo fixou meta ambiciosa, embora aquém da prometida na campanha eleitoral: em quatro anos, tirar da extrema pobreza 16 milhões de brasileiros.
Segundo, porque, ao menos na largada, o Brasil sem Miséria tem baixo potencial publicitário: não se presta a pirotecnias nem pode ser vendido como "inovador".
O plano, a ser anunciado na quinta-feira, apoia-se em três eixos:
1) Inclusão produtiva: no campo, por exemplo, prevê ampliar o fornecimento de água, dar sementes de qualidade e alinhar os novos agricultores ao setor atacadista.
2) Transferência de renda: aumentar o valor do Bolsa Família e incluir 800 mil lares no benefício.
3) Mobilização do Estado: identificar, contatar e cadastrar 16 milhões de pessoas hoje distantes das cadeias econômicas e dos serviços públicos básicos (mais da metade em área rurais e no Nordeste).
Oito anos atrás, essas iniciativas seriam recebidas com descrença. Hoje, graças ao sucesso do Bolsa Família e à expectativa de outro programa tão transformador, elas soam modestas. Um plano guarda-chuva, lastreado em conceitos como "transversalidade" e "multidisciplina", e dependente da motivação do funcionalismo? Só isso?
A equipe do Brasil sem Miséria conhece o país. Foi quem criou o Bolsa Família e desenhou o projeto do biodiesel (que, se não obteve muito impacto social, implantou do zero uma nova rede produtiva).
Mas ela tem pela frente um enorme desafio de comunicação _desafio que o governo, emudecido pelo enriquecimento de Palocci, não parece em condições de enfrentar.

coluna de 30.mai.2011


melchiades.filho@grupofolha.com.br

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Taxa de sucesso

A permanência de Antonio Palocci como ministro-chefe da Casa Civil paralisa o governo, pinta Dilma como uma presidente fraca e constrange o PT.
Palocci não conseguiu justificar o explosivo aumento de seu patrimônio _ocorrido no período em que se ocupava de projetos cruciais no Congresso, como a regulação do pré-sal e a reforma tributária.
Nem esclareceu como faturou R$ 10 milhões nas poucas semanas entre a eleição e a posse de Dilma.
O ministro disse que atuou como consultor a partir de 2006 e que os clientes precisaram apressar os pagamentos em 2010, já que ele seria nomeado para o novo governo.
Mas faltou explicar que tipo de contrato é esse que paga mais na hora em que o serviço deixa de ser prestado. Ou como Palocci conciliava as atividades de deputado, coordenador da campanha de Dilma e consultor. E, sobretudo, o que era vendido _e quem comprava.
Tantas dúvidas são um passivo à espera de repórteres fuçadores, como os da Folha que revelaram o caso, e de mais cobrança pública.
Por que o governo correrá esse risco, e justo quando a conjuntura econômica desfavorável já exige o anúncio de uma agenda positiva?
Por que Dilma reforçará a impressão de que depende de um ministro encrencado, de quem, a bem da verdade, ela nunca foi próxima?
E por que a militância do PT sairá em defesa de quem fez fortuna de modo tão misterioso, de alguém, além disso, que ganhou reputação por fazer política fora do partido?
Sobram a Palocci inteligência e capacidade de trabalho. Não foi à toa que adquiriu influência e trânsito fora e dentro do governo, nas legendas da base e da oposição.
Mas o que o mantém (ou manterá) no cargo não são só essas virtudes. Seu trunfo, paradoxalmente, é o silêncio que hoje o encurrala.
Palocci conhece os interesses de quem paga milhões por conselhos. Governo, Dilma e PT estão reféns da "taxa de sucesso" dele.

coluna de 23.mai.2011

melchiades.filho@grupofolha.com.br

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Consciência de classe

Nem os mais próximos acham que Aécio Neves está botando pra quebrar no Senado. Mesmo antes do caso do bafômetro, ele andou murcho. Como se pesasse nos ombros a constatação de que, enfim, depois de tanta briga dentro do PSDB, a candidatura da oposição em 2014 será mesmo a dele.
Aos poucos, porém, o ex-governador de Minas Gerais emplaca a agenda que lhe interessa, o "novo pacto federativo": estadualização de rodovias federais, compensações financeiras aos municípios, orçamento impositivo na área da segurança, redução dos mecanismos que permitem ao Planalto administrar tudo por decreto etc.
São temas de escasso apelo popular. O governador de Pernambuco até zombou. "Esse debate, sobre se a presidente pode ou não editar medidas provisórias, vai encantar alguém lá na feira de Caruaru?".
Mas são temas que soam como música para os milhares de prefeitos que marcharam a Brasília na semana passada e não arrancaram de Dilma contrapartida significativa para a queda abrupta de receitas.
Música, também, para os partidos da base aliada, atônitos com a multiplicação de cargos do PT.
Música, ainda, para um Congresso repetidamente subjugado por uma presidente que não sabe e não admite perder _como se viu na nova lei do salário mínimo e se vê na tramitação do Código Florestal.
Aécio julga difícil conquistar corações e mentes enquanto o governo estiver forte. Sabe que sua chance de vencer em 2014 depende do desgaste de Dilma e da marca PT.
Por isso adia a fusão PSDB-DEM, à espera de conjuntura que faça dessa união uma janela de infidelidade dos governistas descontentes _uma espécie de PSD às avessas.
FHC havia exortado a oposição a buscar a nova classe média, os eleitores emergentes ainda não seduzidos pelo discurso lulo-petista.
Aécio joga para outra classe média, a dos políticos, uma gente por vezes sem voz, mas com voto.

coluna de 16.mai.2011

melchiades.filho@grupofolha.com.br

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Marco zero

A deterioração de expectativas na economia pegou de jeito o governo Dilma. Expôs não apenas divergências internas, mas a falta de inspiração e de projetos.
Basta conferir as mais recentes medidas anunciadas pelo Planalto no esforço de contragolpear e impor uma agenda positiva: não há ali nada de novo, que dirá inovador.
A começar pela estratégia para lidar com a inflação e a sobrevalorização do real. Depois de testar o "macroprudencialismo", o governo capitulou à velha cartilha do mercado. Deixou de lado a questão cambial, confirmou mais altas de juros e candidamente pediu aos brasileiros que adiem as compras.
Prioridade zero de Dilma, o plano contra a miséria nasceu a reboque do Bolsa Família _e tímido, com meta inferior à prometida.
E vem aí o Água para Todos, reembalagem do eficiente programa de cisternas no Nordeste, na tentativa de emular o sucesso marqueteiro do Luz para Todos.
O esperado choque de gestão? Por ora, somente o reagrupamento de 360 programas em 60 escaninhos. Nada comparável ao PAC, que ao menos tornou público o monitoramento de obras e mudou o fluxo de transferência de recursos.
O governo desperdiçou a chance de pactuar demandas históricas de produtores rurais e ambientalistas. Entregou ao Congresso o ônus e o bônus do novo Código Florestal.
Buscou na gaveta a "solução" para modernizar os aeroportos: um modelo de concessões que não havia sido adotado sob Lula apenas por (in)conveniências eleitorais.
E, na área da segurança, em vez de centrar fogo em iniciativas pioneiras (como um cadastro nacional do crime), lançou outra campanha de desarmamento. "Déjà-vu" total.
Ao final dos cem primeiros dias, especulava-se em que Dilma iria investir a aprovação e a popularidade acumuladas. Essas dúvidas persistem _e a comparação com Lula, até aqui favorável à sucessora, deverá começar a incomodar.

coluna de 09.mai.2011


melchiades.filho@grupofolha.com.br

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Canhão de luz

Os desafios do governo Dilma começam a atrapalhar os planos de Antonio Palocci.
O ministro da Casa Civil fazia de tudo para não exibir em público o poder que possui _e exerce.
Sabe que seu papel central na equipe se deve a conveniências políticas e à carência de quadros do PT, não a afinidades pessoais com a presidente. Embora tenham se aproximado na campanha, ela e ele, o mundo sabe, não falavam o mesmo idioma no governo Lula.
Palocci aprendeu a duras penas que os holofotes são atraentes, mas perigosos. O estrago da quebra de sigilo do caseiro teria sido menor se, à época, ele não pintasse como candidato natural à sucessão de Lula e não manobrasse por isso.
E ele já deve ter percebido, também, que quem opera no bastidor ganha um bônus: atribuem-lhe influência até no que não tocou.
Passados cem dias, porém, três problemas dificultam a permanência de Palocci na moita:
1) Na economia, Dilma adia a alta de juros que o mercado reclama para deter a inflação e faz um duelo faquir-serpente com os especuladores: perde quem piscar primeiro. Enquanto isso, os preços sobem.
2) O governo não decola, incapaz de gastar dinheiro direito e resolvido a fazer superavit (aqui, sim, atendendo o mercado). Banda larga universal, obras da Copa, Minha Casa, Minha Vida, tudo empacou.
3) Partidos aliados estão insatisfeitos com seus espaços e revoltados com o desdém da Presidência.
Com trânsito no Congresso, entre empresários e na imprensa, Palocci é um porta-voz "de credibilidade".
Nos últimos dias, foi acionado para anunciar a concessão de aeroportos, reiterar o "compromisso" do governo contra a inflação, arbitrar a pinimba entre produtores e ambientalistas acerca do Código Florestal e sossegar os desalojados do PT (Caixa) e do PMDB (Funasa).
Alguém tem dúvida sobre quem será chamado a negociar com a direção petista na nova era Delúbio?

coluna de 02.mai.2011


melchiades.filho@grupofolha.com.br