As "novas práticas políticas" que a presidente Dilma Rousseff divulga como atração do segundo ano de mandato têm alcance limitado e prazo de validade.
A decisão de brecar o toma lá dá cá não nasceu do diagnóstico de que o sistema está viciado, mas da necessidade de reagir a um princípio de levante de aliados no Congresso _as cúpulas partidárias já se sentiam à vontade para cobrar o terreno perdido na esteira da "faxina" e do estrangulamento orçamentário.
A resposta do governo foi trocar seus líderes no Senado e na Câmara. Caíram Romero Jucá e Cândido Vaccarezza. Não à toa, ambos símbolos do consórcio PT-PMDB, que deu sustentação a Lula 2.
Interessa a Dilma "discutir essa relação" e repactuá-la em termos menos leoninos. É ingenuidade, porém, apostar na escalada do confronto e no descarte do PMDB, convenientemente transformado em símbolo maior do fisiologismo.
O Planalto não se preocupa tanto com a agenda legislativa nem com os votos peemedebistas para a Lei Geral da Copa, o Código Florestal ou a nova previdência dos servidores. Nesses casos, a solução é relativamente simples: adiar as votações até costurar um acordo ou vetar aquilo que for aprovado à revelia.
São outros os fatores que tornam o PMDB essencial. O partido está embicado para assumir o comando das duas Casas do Congresso a partir de fevereiro próximo e terá expressivo tempo de televisão na campanha reeleitoral de 2014.
A "crise" entre Executivo e Legislativo tende, portanto, a não adentrar 2013. O que não significa que ela sairá rapidamente do noticiário.
O segundo ano de Dilma carece de uma marca que gere dividendos de imagem, como foi a demissão serial de ministros em 2011. Já que o PAC anda engasgado e a economia só deverá pegar no tranco no segundo semestre, por que não aproveitar e bater pesado na "velha política"?
coluna de 26.mar.2012
melchiades.filho@grupofolha.com.br
segunda-feira, 26 de março de 2012
segunda-feira, 19 de março de 2012
Promessa é dívida
Uma a uma, as promessas da campanha de Dilma Rousseff vão sendo esquecidas ou redimensionadas. Dois milhões de moradias, 6.000 creches e pré-escolas, 10 mil quadras esportivas, PAC 2: quase nada ficará pronto no prazo.
Não se deve subestimar as agruras da administração pública: gigantismo, loteamento, corrupção, ausência de instrumentos de cobrança e recompensa, orçamento engessado, conjuntura internacional... Mas Dilma, veterana em Brasília, sabia bem disso. Na Casa Civil de Lula, ela gerenciava todas as repartições _inclusive as que ajudaram a redigir seu programa de governo.
Talvez a presidente tenha chutado para cima os objetivos, para obrigar a máquina a se empenhar mais. Talvez ela tenha feito uma autocrítica e agora prefira não tocar obras a tocá-las de qualquer jeito.
O problema é que isso não resta claro. O Planalto insiste em jogar na defensiva _ou na confusão.
Tome-se o abandono da ideia de construir 2.883 Unidades de Polícia Pacificadora. Primeiro, o Ministério da Justiça admitiu ter baixado a bola, pois subestimara os custos. Depois, ante a má repercussão, alegou que o projeto "está ativo como nunca", com uma "readequação", e que não se deve confundir UPP com posto de polícia comunitária.
Em novembro de 2010, porém, o secretário-executivo do programa nacional de segurança foi explícito: a meta seria instalar 2.883 bases fixas de policiais. "A UPP é um nome específico do Rio. Nós chamamos de posto comunitário, um genérico."
Indagada naquele ano sobre o risco de não cumprir os compromissos assumidos, Dilma disse que, embora ambiciosos, eram todos factíveis: "Tem uma coisa importante: a curva de aprendizado, a capacidade do ser humano de aprender".
A convicção da candidata sumiu na Presidência. Seu governo ainda não aprendeu nem a explicar por que faz tão pouco do que jurou fazer.
coluna de 19.mar.2012
melchiades.filho@grupofolha.com.br
Não se deve subestimar as agruras da administração pública: gigantismo, loteamento, corrupção, ausência de instrumentos de cobrança e recompensa, orçamento engessado, conjuntura internacional... Mas Dilma, veterana em Brasília, sabia bem disso. Na Casa Civil de Lula, ela gerenciava todas as repartições _inclusive as que ajudaram a redigir seu programa de governo.
Talvez a presidente tenha chutado para cima os objetivos, para obrigar a máquina a se empenhar mais. Talvez ela tenha feito uma autocrítica e agora prefira não tocar obras a tocá-las de qualquer jeito.
O problema é que isso não resta claro. O Planalto insiste em jogar na defensiva _ou na confusão.
Tome-se o abandono da ideia de construir 2.883 Unidades de Polícia Pacificadora. Primeiro, o Ministério da Justiça admitiu ter baixado a bola, pois subestimara os custos. Depois, ante a má repercussão, alegou que o projeto "está ativo como nunca", com uma "readequação", e que não se deve confundir UPP com posto de polícia comunitária.
Em novembro de 2010, porém, o secretário-executivo do programa nacional de segurança foi explícito: a meta seria instalar 2.883 bases fixas de policiais. "A UPP é um nome específico do Rio. Nós chamamos de posto comunitário, um genérico."
Indagada naquele ano sobre o risco de não cumprir os compromissos assumidos, Dilma disse que, embora ambiciosos, eram todos factíveis: "Tem uma coisa importante: a curva de aprendizado, a capacidade do ser humano de aprender".
A convicção da candidata sumiu na Presidência. Seu governo ainda não aprendeu nem a explicar por que faz tão pouco do que jurou fazer.
coluna de 19.mar.2012
melchiades.filho@grupofolha.com.br
segunda-feira, 12 de março de 2012
Quem fica parado é poste
Uma série de contratempos ameaça o plano de reeditar com Fernando Haddad o sucesso de Dilma Rousseff, que surgiu do nada e ganhou uma eleição dura.
O ex-ministro da Educação tem atributos semelhantes aos da novata de 2010: experiência no serviço público, reputação de gestor e o fato de não ter passado pelo teste das urnas _algo que, se o faz desconhecido do eleitor e até do militante, dá à candidatura um lustro de novidade. A fina estampa fecha o pacote dos sonhos da marquetagem.
A campanha em São Paulo, porém, não largou bem. Por ora, o tratamento do câncer impede que Lula comande as operações.
A construção de Dilma, vale lembrar, começou com quatro anos de dianteira. Foi em 2007 que Lula apresentou a "mãe do PAC".
Sem o ex-presidente do lado, Haddad tem dificuldade em aparecer. Daí seus números esquálidos nas pesquisas. No Datafolha, são 3% de intenção de voto. Em fevereiro de 2010, Dilma já cravava 28%.
A ausência de Lula ajuda a explicar também o bate-cabeças dentro do PT, que se engalfinha por nacos de poder na campanha, e a dificuldade em reproduzir a coalizão federal em São Paulo. O PMDB, que em 2009 já engatava com Dilma, agora insiste no voo solo. Até aqui, Haddad não amarrou nem o PC do B.
Ao candidato conviria uma aliança ampla, pois o antipetismo na cidade é maior que no Brasil. O PT paulista foi o QG dos grandes escândalos da era Lula. Sua passagem pela prefeitura deixou pouca saudade _a boa avaliação de Marta Suplicy na reta final do mandato acabou corroída pela propaganda adversária.
Dilma, que goza de alta popularidade em São Paulo, poderia ajudar. Mas correrá ela o risco de derrota em um tira-teima contra José Serra?
A sorte petista numa eleição tão "nacionalizada" parece depender de outro fator: os eventuais erros do tucano, numerosos em 2010.
coluna de 12.mar.2012
melchiades.filho@grupofolha.com.br
O ex-ministro da Educação tem atributos semelhantes aos da novata de 2010: experiência no serviço público, reputação de gestor e o fato de não ter passado pelo teste das urnas _algo que, se o faz desconhecido do eleitor e até do militante, dá à candidatura um lustro de novidade. A fina estampa fecha o pacote dos sonhos da marquetagem.
A campanha em São Paulo, porém, não largou bem. Por ora, o tratamento do câncer impede que Lula comande as operações.
A construção de Dilma, vale lembrar, começou com quatro anos de dianteira. Foi em 2007 que Lula apresentou a "mãe do PAC".
Sem o ex-presidente do lado, Haddad tem dificuldade em aparecer. Daí seus números esquálidos nas pesquisas. No Datafolha, são 3% de intenção de voto. Em fevereiro de 2010, Dilma já cravava 28%.
A ausência de Lula ajuda a explicar também o bate-cabeças dentro do PT, que se engalfinha por nacos de poder na campanha, e a dificuldade em reproduzir a coalizão federal em São Paulo. O PMDB, que em 2009 já engatava com Dilma, agora insiste no voo solo. Até aqui, Haddad não amarrou nem o PC do B.
Ao candidato conviria uma aliança ampla, pois o antipetismo na cidade é maior que no Brasil. O PT paulista foi o QG dos grandes escândalos da era Lula. Sua passagem pela prefeitura deixou pouca saudade _a boa avaliação de Marta Suplicy na reta final do mandato acabou corroída pela propaganda adversária.
Dilma, que goza de alta popularidade em São Paulo, poderia ajudar. Mas correrá ela o risco de derrota em um tira-teima contra José Serra?
A sorte petista numa eleição tão "nacionalizada" parece depender de outro fator: os eventuais erros do tucano, numerosos em 2010.
coluna de 12.mar.2012
melchiades.filho@grupofolha.com.br
segunda-feira, 5 de março de 2012
Lacrimosa
Há duas maneiras de interpretar o choro engasgado de Dilma Rousseff na cerimônia de posse do novo ministro da Pesca.
Uma delas ajuda a alimentar a imagem da técnica dedicada a buscar soluções para os problemas do Brasil e decidida a não perder tempo com negociações partidárias.
Ao lamentar em público a demissão de Luiz Sérgio, admitir candidamente que o objetivo foi fazer vaga para um evangélico e afirmar que às vezes é preciso entender "as necessidades de um governo de coalizão", a presidente sugere que faz política somente por necessidade.
A mensagem é que, se dependesse exclusivamente da vontade de Dilma, as nomeações se dariam sempre por mérito e/ou afinidade _vide Graça Foster (Petrobras) e Eleonora Menicucci (Mulheres). Que, para ela, é concessão, quase violência, tocar o dia-a-dia ao lado de peemedebistas, pepistas e demais "istas".
Essa leitura torna Dilma singular na comparação com outros governantes do passado e do presente.
Mas também é possível enxergar nas lágrimas indício justamente do contrário: a presidente já emula o antecessor até no uso da emotividade para reforçar a "marca".
Chorou de apreço por Luiz Sérgio? Ele não era próximo de Dilma, já tinha sido degolado uma vez (Relações Institucionais) e, inoperante, era alvo de piadas palacianas.
De desconforto com Marcelo Crivella, o novo ministro, que nunca viu um anzol? Nomes como Mário Negromonte passaram pela Esplanada sob completa tolerância.
De preocupação com a Pesca? A pasta quase foi extinta neste ano.
Blagues cada vez mais frequentes _como prometer distância das eleições municipais e, logo em seguida, operar a céu aberto em prol da candidatura de Fernando Haddad. Declarações progressivamente coloridas _"tsunami de dólares". Coração alado. O continuísmo ganha força no segundo ano de Dilma.
coluna de 05.mar.2012
melchiades.filho@grupofolha.com.br
Uma delas ajuda a alimentar a imagem da técnica dedicada a buscar soluções para os problemas do Brasil e decidida a não perder tempo com negociações partidárias.
Ao lamentar em público a demissão de Luiz Sérgio, admitir candidamente que o objetivo foi fazer vaga para um evangélico e afirmar que às vezes é preciso entender "as necessidades de um governo de coalizão", a presidente sugere que faz política somente por necessidade.
A mensagem é que, se dependesse exclusivamente da vontade de Dilma, as nomeações se dariam sempre por mérito e/ou afinidade _vide Graça Foster (Petrobras) e Eleonora Menicucci (Mulheres). Que, para ela, é concessão, quase violência, tocar o dia-a-dia ao lado de peemedebistas, pepistas e demais "istas".
Essa leitura torna Dilma singular na comparação com outros governantes do passado e do presente.
Mas também é possível enxergar nas lágrimas indício justamente do contrário: a presidente já emula o antecessor até no uso da emotividade para reforçar a "marca".
Chorou de apreço por Luiz Sérgio? Ele não era próximo de Dilma, já tinha sido degolado uma vez (Relações Institucionais) e, inoperante, era alvo de piadas palacianas.
De desconforto com Marcelo Crivella, o novo ministro, que nunca viu um anzol? Nomes como Mário Negromonte passaram pela Esplanada sob completa tolerância.
De preocupação com a Pesca? A pasta quase foi extinta neste ano.
Blagues cada vez mais frequentes _como prometer distância das eleições municipais e, logo em seguida, operar a céu aberto em prol da candidatura de Fernando Haddad. Declarações progressivamente coloridas _"tsunami de dólares". Coração alado. O continuísmo ganha força no segundo ano de Dilma.
coluna de 05.mar.2012
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